Debaixo dos panos

Enfim, Paris. O relato começa assim e para no meio porque todos os relatos sobre Paris parecem frívolas experiências pequeno burguesas cheias de clichês. A questão é que depois de escutar Cazuza e ler Marx, falar sobre Paris é um fardo pesado e descobri-la também.

Aí eu entrei na minha missão de encontrar a Paris não turística, assim com mais gente vivendo que tirando fotos. A missão então entra em conssonância com minha missão de ler um livro por semana. E eu penso em bibliotecas. Claro, turistas vão às bibliotecas, mas não às salas de leituras. Voilà, o que é mais anti-turístico que o silêncio de bibliotecas?

Kafka na estante
Só que contos de fadas são turísticos e a realidade é dura. Eu vou até a biblioteca nacional Richelieu. Encontro uma sala com estantes até o teto e pessoas de camiseta e sem câmera fotográfica lendo seus livros. Os olhos brilham e um senhor distinto e com crachá, me pergunta: aqui é uma sala para pesquisadores,você é pesquisadora? Esse é o tipo de questões que faz a vida passar diante dos olhos.

Você tem 3 anos e meio de universidade, 7 meses de intercâmbio, um ex-projeto de pesquisa, leituras esparssas sobre semiótica, mas não, você não consegue se considerar pesquisadora. Uma machadada na cabeça.

Tempestade e bonança
Aí o moço diz que tem uma biblioteca municipal a duas ruas dali. Eu saí cabisbaixa e encontrei um dos maiores tesouros: existem 59 bibliotecas municipais em Paris, todas interligadas e com lista do acervo na internet. Não, isso não é propaganda da prefeitura, é só que eu fiquei extasiada com meus cantinhos para procurar silêncio.

Desde então vamos com uma biblioteca por dia e vendo como é essa Paris entre as estantes. To be continued...

Lista de coisas bo(b)as de observar em Paris:
  • as olheiras das estátuas nos portais
  • as árvores nas coberturas dos prédios
  • o movimento sincronizado das gentes saindo do mêtro
  • os fones de ouvidos curiosos que o povo usa

Para terminar uma citação de Zaratrusta (livro da semana):

"Les plus grands événements ce ne sont pas nos heures les plus bruyantes, mais nos heures les plus silencieuses.
Ce n'est pas autour des inventeurs de bruits nouveaux: c'est autour des inventeurs de valeurs nouvelles que le monde tourne; il tourne silencieusement."

"Os maiores momentos não são aos mais barulhentos, mas os mais silenciosos.
Não é em volta dos inventores de barulhos novos: é em volta dos inventores de valores novos que o mundo gira; ele gira silenciosamente"


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