A minha paixão é criada

Começou a temporada de chuva em Lannion. Tempo bom para quem tem que ficar no quarto estudando para as provas e fazendo pesquisas de trabalhos.

Fora isso, o arco-íris daqui é lindo. Fica perfeitinho que nem desenho de criança, fazendo arco no céu todo. E a grama é cheia de minhocas e depois das chuvas as calçadas ficam inundadas de caracóis. Aí você acorda e o céu na sua janela está branco, mais branco que cinza.
Vamos para o momento aprendizado
arco-íris: arc-en-ciel
minhoca: ver de terre
caracol: colimaçon
Lindo não?

Tô feliz, só para quem quiser saber. Ando conseguindo me organizar mais que o que eu imaginava. Tenho conseguido sem virar santa cumprir minhas promessas.
Alongamentos todo dia, vamos voltar para o Brasil encostado a mão na pontinha do pé.


Recortes de mim




laerte (L)





mediapart.fr

Fotos


Buff, como diz minha amiga Priscila, orkut, facebook, zilhões de redes sociais, eu não consigo estar em contato com todo mundo e tenho uma preguiça enorme de mandar milhões de email com as minhas fotos. O lema é integração, então, criei uma conta no flickr onde colocarei de agora em diante todas as minhas fotos para quem tiver curiosidade.

Anote aí:
http://www.flickr.com/photos/anaritaldc/

Não, eu não tenho ainda máquina fotográfica e por enquanto não terei em um protesto contra essa sociedade imagética. Para ter olho-câmera eu tinha de ser assim um Cartier-Bresson. E por falar nele, li um texto muito bom, considerado um dos únicos produídos por ele sobre fotografia. A quem interessar a ler, "L'instant décisif" tem uma versão em francês, em espanhol e em português.

Enfim, estou cá morrendo de estudar, mas estou indo melhor que o esperado. Pensando também no que fazer no natal. Se há algo desesperador na Europa são os preços de passagens de avião, eles sobem numa tacada implacável.

Acho que há outra coisa que me desespera mais, o sumiço do sol. Os dias estão ficando cada vez mais curtos e as nuvens mais densas. Acho que alguém está abrindo devagarinho a cumbuca do escuro, e o escuro é friiio.

PS: Esta semana me atualizo de cartas e emails, esperem e verão

Lévi-Strauss est mort


"O antropólogo Claude Levi-Strauss detestou a Baía de Guanabara:
Pareceu-lhe uma boca banguela"


Eu vim a França por muitos motivos, mas um deles era um sonho fresco de encontrar Lévi-Strauss em um recanto de Paris e tomar com ele uma xícara de café. Não ia falar muito, mas queria só uma história com suas pausas sorridentes.

Abro o site do Le Monde e o mundo cai, Lévi-Strauss est mort. Causa da morte não revelada, mas pouca importa. Não é porque tristes trópicos seja um nome lindo para livro, é porque ele olhava o mundo com encantamento, metendo, como eu queria fazer, um ponto de interrogação em tudo o que parecia certo. Não foi perfeito e teve inimigos, estruturalista, disseram com asco.

Lévi-Strauss era homônimo do moço da calça jeans, mas com mais ternura.

Hoje, eu quase chorei.

Sí, pero no mucho


Senhores,

como podem ter visto estou com uma preguiça danada de escrever. Na verdade, anda muito bem a viagem, mil histórias, mil análises e um livro do Bachelard pendendo na estante (como ele entende o abstrato).

Ainda não será desta vez que me prolongarei em histórias. Estive em Barcelona semana passada. Turistei, em três dias lo que podemos hacer?

A cidade é linda, as pessoas guapíssimas e eu consegui arranhar o espanhol melhor do que esperava. Além do fato de que agora sei falar cabelereiro e faca em catalão (perruqueiro e canivete).

É preciso remarcar o estádio do Barcelona. Visitei vazio, pois aqui só tem jogos aos domingos, mas matei de inveja a flamenguista da Lívia quando vi flamulando (a parte do flamulando é licensa poética) uma bandeira enorme do Botafogo próximo a sala de troféus do Barça e do lado um pequeninha do Flamengo. Moderarei todos os comentários que desmereçam minha felicidade, hahahhaha.

Gaudí é uma ternura só e as varandas dele são cheias de mulheres descontruídas. De Dalí só senti o cheiro e no entanto ele me encheu a boca de moscas, mas moscas limpíssimas:



Na França vou tentando criar hábitos.

Agora chove muito e a Bretanha vai deixando seu amarelo escorrer nas ruas. Ah, Flávio, mas a beleza ainda est dans la rue.

Mamãe me mandou havaianas e farinha como presente do Brasil. Estou bem feliz. Farofa! Quase gritei, mas o peso do exotismo ainda pende nas costas. Uma merda isso.

Enfim, para minhas besteiras, roubei do Iuri, o brasileiro do andar de cima, uma cantora bem melosa, mas adorável que se chama Coralie Clement. Tem uma música linda que no refrão fala "la samba de mon coeur que bat". O fato de samba ser feminino em francês é bem estranho, mas enfim, samba do meu coração que bate é uma frase bem bonita, mesmo estando numa música de romance açucarado. E a melodia é jolie.

Paris II

Preâmbulo

Faz um tempao que eu nao escrevo no blog, faz um tempao que eu nao escrevo para uma porçao de gente, mas prometo que a partir de agora boto a correpondecia nos eixos. Depois publico tambem umas fotos e tal.


É engraçado visitar Paris. Foi minha segunda vez na cidade-luz e estive mais turista do que nunca. Fotos na torre eiffel, na galeria lafayete, no moulin rouge, no café da amélie, no Louvre...

Falando nele, não sou de chorar em público, mas fui ao Louvre e chorei. Na minha frente dezenas de pergaminhos egípcios, milhares de anos todos ali, condensados em finas folhas com inscrições que eu não entendia. Lágrimas.

A decepção no fim é só a Monalisa, cercada de turistas, tirando fotos com os piores enquadramentos possíveis. A coreana com um pedaço da mão do italiano que tirava foto das espanholas e da perna do segurança.

Na verdade, caminhar no Louvre é quase como construir um objeto de estudo. A máquina fotográfica é uma extensão do olho, da memória, da realidade, da carência?

Enfim, mas teorias à parte, sair do Louvre em direção a catedral de Notre Dame é bem bacana também. A gente fica vendo um bocado de banquinhas, pequenos sebos que vendem de revistas de mil oitocentos e bolinhas a cartões postais super turísticos, e bem bonitos também.

E o subsolo de Paris, parte bem visitada pelos turistas-estudantes-sem-grana, é também bem curioso. O metrô parece uma reunião de personagens de livros diferentes. A cada vagão que partir um bisturi deixando jorrar as caricaturas: o homem que segurava a barra do metrô como o mastro de um navio, a senhora que toca uma flauta doce, o senhor de pés inchados erguidos sobre um banco, a moça de um sorriso desesperado. Aí, ainda tem uma plaquinha marcando a cadeira reservada para idosos, mulheres grávidas e mutilados de guerra.

Agora, ir a Paris mais que turismo é também confrontar-se com a cidade que foi referência cultural quando o seu país era colônia. Eu não consegui olhar para o arco do triunfo e não me interrogar sobre o que é, foi, será isso tudo que chamamos de triunfo.

Eu podia até escrever páginas e páginas, mas isto é um blog e você está me lendo para saber como estou de viagem. Pois bem, estou ensaiando deixar de ser turista para ser viajante.

Sobre Garrel e canetas

Hoje, acordei mais capitalista que anarquista (ah, meu bem, em mim cabem as duas coisas ao mesmo tempo). Fui ao Leclerc, o mundo dos sonhos das compras, um supermercado que fica há cinco minutos a pé, bien sûr, de distância e tem de gasolina a palito de dentes.

Pois bem, chegando no tal mundo dos sonhos achei uma caneta tinteiro. Ah, como tenho afeto por canetas tinteiros! Assim, dessas de bico de pena que deixa até a letra mais bonita e custando apenas 1,50 euros. Comprei. "Sou daquelas mulheres que só dizem sim..."

Segundo momento, consumista, comprei meu copin francês, meu Louis Garrel, uma cafeteira que faz até 1,5 litros de café. A tal cafeteira estava na promoção e tem como defeito um neon azul que acende quando está funcionando. Enfim, estou super equipada para alimentar meu vício de cafeína. Agora, também poderei economizar os 50 centavos gastos na máquina de café, o outro grande amor francês.

Por falar na máquina de café, esses dias estava refletindo sobre o RU da UnB, que não é como o daqui que tem até camarão, mas enfim. Na máquina de café, tem uma bebida com aroma de cacau. É líquido marrom, que tinha tudo para ser chocolate quente normal, mas é uma experiência sinestésica, a gente bebe o cheiro. Aí, lembro do suco de cor do RU, a gente todo dia bebendo uma figura de linguagem sem se dar conta.

Fora todos esses pecados, semana passada fui à uma festa na casa de uma colega, uma soirée brasileira. Levei umas músicas daí e no fim estávamos sambando e eu tirei os sapatos. Ponto. Foi a primeira vez que fiquei verdadeiramente descalça aqui. Acho que estou começando a me adaptar a este continente.

ps: Interessados em cartas e postais me mandem o endereço por email. Aqui tem uns postais lindos!

O dia em que fui azul


Li as cidades invisíveis (livro roubado pelo ladrão intelectual que robou meu carro, meus livros, meus discos e uma casa no campo). Depois vi Budapeste e detestei, mas comecei a pensar que as cidades tem mesmo cores. Yandra, uma amiga, esteve em Budapeste e disse que lá é mesmo cinza, assim como nenhum outro lugar. Daniela, outra grande amiga, já havia me dito que a Suíça era azul. Perguntei a Abdeil, o marroquino que me recebeu em Lannion, hesitante ele me disse: "Marrocos é vermelha". Penso que Brasília é uma cidade inegavelmente branca e talvez isso seja culpa de Lispector, Niemeyer e Mondrian.

Domingo, fui novamente à praia de Trestaou em Perros-Guirrec, na França. Sentei nas pedras olhando o mar, as casas, os barcos e no fim só posso dizer que Perros é amarela. Tudo tem assim um amarelo queimado, bruillé. Já Lannion, é uma cidade amarelinha, quase como o jogo e menos como o livro do Cortázar, que eu nunca li. Creio na verdade que toda Bretanha seja amarela, até mesmo a comida tem um gosto amarelo, uma eterna mostarda perpetuando na língua.

De tanto pensar que estou em um mundo amarelo, domingo, pintei-me de azul para contrastar, para lembrar que eu não sou daqui, mas que quero harmonizar com a estética. Domingo, fui mais azul que a menina azul do Hermeto, que o filme da Tóia, que os olhos dos franceses. Colori-me e espero que quando desbotar fique assim um tie-die, brega como todos os tie-dies, mas numa psicodelia infinita, saravá.

Para a insônia:
(não é francês, mas é muito Lannion)

O que há no meu quarto de Lannion

Ainda não tenho uma máquina fotográfica (isso, mudei de continente sem máquina) mas, antes que você me bata, eu tenho uma webcam! Oui, e para ninguém botar defeito, fiz até um book em frente a minha nova velha mesa de trabalho.

1. Madame Bovarie
Essa flores roxas na minha mão são as hortências, planta símbolo da Bretanha, que decoram meu quarto.
No canto do cabelo, um petit parapluie, um guarda-chuva de papel que veio no ponche que tomei na festa de recepção dos calouros (adoro brindes!) Os franceses, ou pelo menos os de Lannion, dançando são o que podemos chamar de gringos.

2. Meia entrada

Essa é minha carteirinha de estudante. Para variar, minha foto 3X4 tá um desastre, mas não impede de conseguir desconto no cinema, no teatro e, pasme, no McDonalds.

3. Injeção na testa

A França é mesmo peculiar. O que você vai encontrar como brinde em um pacote de pães doces? A figurinha do picatchu, anel de plástico, não, sementes de mostarda branca e callipissus (!!!).
Vou plantá-las, se funcionar eu aviso.

4. Je sais lire

Essa é minha pose Fulanóvisk lendo a programação de um festival de teatro. Importante, aqui os folhetos de eventos são tão lindos! Esse aí é um que eu estava vendo para auxiliar em um projeto gráfico do jornal daqui (depois comento mais desse fato)

5. Recado na parede

Post-it aqui na França é igual no Brasil, mas os cadernos não. Aqui os cadernos são cheios de quadradinho e não linhas.




6. Probléme portable

Isto que tenho nas mãos é um celular comprado na Champs-Élysées (não consegui me livrar dessa praga). Não funciona para ligações internacionais e por enquanto uso mais como rádio(já consegui até ouvir um culto do descarrego em francês, pelo menos parecia bastante).

7. Mon coupin

Para finalizar, esse é o Louis Garrel na minha janela, pois afinal, todos os franceses são iguais ao Louis Garrel, né, Pit?
ps: o livro não está aparecendo, mas ele está lendo comigo Simone de Bouvoir.

Controle remoto

Nos primeiros dias na França fiquei procurando a tecla SAP, mas a gente sai de casa e deixa o controle remoto no sofá. Aí que você percebe que tudo mudou. Agora procuro outro botão, o do relativismo cultural. Viajar tem essas vantagens de olhar as coisas de longe e iniciamos o delicioso exercício de conseguir metáforas para definir as coisas, voilà, estou nesse processo por aqui.

Já tenho colegas que parecem mais gostar de mim do que conversar pela obrigação de ser gentil com a estrangeira. E na verdade isso de ser estrangeira e da sua cultura ganhar o adjetivo de exótica mexe com a cabeça da gente. Indagações, indagações.

Fora isso, preciso comentar da praia de Perros-Guirec. Ah, como o mar daqui é lindo! A água azulzinha e transparente, dá até para ver os peixinhos no fundo. Aí eu fui tentar mergulhar, mas os 15°C da água mal me deixaram respirar. Depois passou um meninho nadando como se nada estivesse acontecendo, estou guardando essa imagem para metaforizar alguma coisa.

Atenção a todos: estou montando aqui uma caixa de cartões postais e quem mais os quiser me mande por email o endereço que envio assim que possível.

Hoje vou a uma cremàrie, uma festinha que as pessoas fazem para inaugurar a casa, no caso dos estudantes daqui é para inaugurar a república que eles estão alugando. Enfim, depois conto as experiências.

Pequeno diário ou primeiras impressões

L’arrivée

Quando descemos do aeroporto a palavra que veio foi “Paris!”. Aí, veio o metrô, quarenta quilos de bagagem e muitas escadas. No meio do caminho um brasileiro de camisa da seleção que mora na cidade e vive de garçom no verão e futebol no inverno.

Chegamos ao hotel cinco horas depois do avião pousar, os braços arriados. O moço do hotel percebeu, nos ajudou, mas esqueceu de falar que La Rue de fréres de voisin, onde estávamos, não era francesa, mas a cópia de Ipanema. No primeiro dia de Paris, me senti no Rio e quase ouvi o mar.

Deuxiéme jour

A palavra que veio quando acordamos foi “Ai!”. Interjeição é palavra? Agora não importa, mas meu corpo pedia cama e minha cabeça era turista. Saímos cedo, pegamos o metrô, mas desta vez sabíamos olhar o mapa. Existem milhões de linhas de metrô em Paris!

No subsolo, havia gente, gente em silêncio, os franceses não são de falar em público, lêem, olham os sapatos, se calam e eu e a Lívia, minha companheira de viagem, ficamos conversando a viagem inteira. À caminho da saída uma surpresa, um homem tocando acordeom. Senhores, meus pés guiaram os braços e tive de dançar, no meio do metrô, personagem de um romance inacabado.

No centro de Paris, os olhos se perdiam por entre as construções, as pinturas nas paredes , as ruas com nomes deliciosos, os fumantes de elegância mor, as flores nas janelas, o Senna, a Torre Eifel, o palácio de Varsóvia, o arco do Triunfo, o vendedor argelino de souvenirs. Uma lágrima. Paris, conta história demais para os olhos.

Visitamos também a avenida Mangenta. Completamente fora do circuito turístico, a rua tem malas baratas, vestidos de noiva e bananas. Tanto ecletismo capitalista, misturado às roupas dos árabes, fizeram de uma simples parada uma experiência fascinante: Paris pulsa, mas não aquela Paris, a outra.

Lannion (a coupe d’oeil)

O trem atrasou, as vacas tem nariz branco, a menininha chamando o bicho de pelúcia: popo (um pequeno hipopótamo rosa, é, as crianças são esdrúxulas).

A sensação de estar indo para o meio do nada se confirmou quando chegamos a gare du train. Abdeil, carinhosamente chamado de Abgail, (não, eu não falo árabe, mas juro que tentei) nos recebeu.

A cidade é minúscula o céu com cara de chuva e o peso de quarenta quilos de mala. “Vocês tem o dinheiro do aluguel?”, assim nos recebeu a moça da entrada da residência universitária. Depois nos deu milhões de folhas de papel e sem olhar na cara nos entregou a chave. A palavra foi: “Céus”. O quarto era que só poeira e eram 21h da noite, ainda claro, pois aqui anoitece depois das 21h.

Duas horas da manhã, eu me senti em casa. Mala arrumada, quarto limpo, o céu desanuvio.

Depois de duas noites

Não sinto fome, nem sono, só frio. O clima por enquanto está ameno na cidade, mas a noite esfria um bocado. Cinco horas de fuso horário, noite começando às 21h, sem farinha, carne, nem feijão.

Os franceses são lindos, mas de boca fechada, sim, eles tem os dentes marrons, amarelos, roxos, isso quando tem. Além disso há um eterno cheiro de cêce no ar.

O Ru é limpíssimo, a comida variada e deliciosa, mas tem umas coisas que eu não faço idéia do que são

Hoje consegui escrever a carta que prometi a meus priminhos. Ainda não tive tempo de comprar postais.

Comecei a fazer amigos franceses, a entender a lógica deles e me diverti em um pequeno bar de Lannion tentando explicar Chico Science, forró e mentiras sobre brasileiras, é preciso urgentemente acabar com os cartazes de brasileiras de fio dental.

Contagem regressiva

1° "é preciso compor um novo samba sem rasgar a velha fantasia"

2° "eu quero é correr mundo, correr perigo"

3° "8h e danço de blusa amarela"




escolha um verso bem bonito, diga adeus e vá se embora.
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parto dia 29 de agosto

Heterônimo

Preciso arranjar mesmo um deste. Vou mudar de país, de continente e por que não de nome, de história, de respostas?

Eu poderia virar uma moça recatada que veste sutiãs vermelhos para dormir e se chama Adélia. Saberia tocar piano, claro, e recitaria Casimiro de Abreu, obras completas.

Ou poderia ser Cecília e ter dançado balé no Municipal até o fatídico dia em que quis ter meus pés bonitos. Passaria creme no corpo todas as manhãs e os moços cantariam meu cheiro de tutti fruti.

Quem sabe se eu me tornasse compulsiva por bolos e miosótis e passasse as tarde procurando um sabor mais doce no vento. Chamariam-me de Lú, mas só eu pronunciaria meu nome inteiro, Luzia.

Aí eu fico pensando que mudarei de endereço, mas o oceano que me banhará ainda será o mesmo. Atlântico baterá em minha varanda e delatará todas as minhas mentiras, e eu terei de fugir para longe, correndo desvairada pela Espanha até chegar na África. Lá, me pegarão distraída, repetindo devagarinho: eu atravessei o estreito de Gibraltar.


Enfim, não tenho heterônimo ainda nem mesmo pseudônimo, mas tenho fotos bonitas de Lannion, graças ao meu querido Flávio. Segundo ele, isso é puro cenário de Rapunzel.


Mais fotos de lá você encontra no flirck do Ade, the great (???).

Dentes quase não púrpuras

li em um texto do Borges:

pusilânime
adj e s m+f (lat pusillanime) 1 Que, ou pessoa que tem ânimo fraco; covarde. 2 Que, ou pessoa que mostra fraqueza de ânimo ou covardia. Antôn: corajoso, audaz.

O que é distante parece tão imenso, parece que vai caber todas as interrogações da gente e matar com cajadada as angústias. Parece que a França não me cobrará decisões e que Lannion será só vento, vento e mar.

A França é bom porque é um mundo distante. Não sei se tenho medo ou preguiça. Só quero saber agora é como levar uma sacolinha de paçoca para comer com leite.

Contra a mesmice, samba

Eu queria tanto sair na noite e ser surpreendida!

Enfim, enfim, sem mais chorumelas, eu encontrei uma surpresa esses dias no youtube. Um Ensaio gravado, em 1974, com Leci Brandão, a primeira mulher da ala de compositores da Mangueira, e Cartola, um dos criadores da Estação Primeira. No total são 14 entrevistas e 24 músicas, dá para ver tudo pela internet no canal da Trama no youtube.

A gravação com planos fechados e fechadíssimos faz os olhos dos dois compositores encostarem na gente e fica uma delícia assistir. Fica a dica, veja em modo de tela cheia.

Entre pérolas ouvidas, duas me encantaram muito:

Leci Brandão - "Um vagabundo dependendo da posição dele pode ser maravilhoso"



Cartola- "Era outra coisa. Eu falava dos olhos de uma cabrocha..."

Fim de semestre

Phrase du jour:

"E pra quê sustentar o amarelo de um sorriso tão pé de chinelo?"

A cidade e as trocas III


Ao entrar no território que tem Eutrópia como capital, o viajante não vê uma mas muitas cidades, todas do mesmo tamanho e não dessemelhantes entre si, espalhadas por um vasto e ondulado planalto. Eutrópia não é apenas uma dessas cidades mas todas juntas; somente uma é habitada, as outra são desertas; e isso e dá em turnos. Explico de que maneira. No dia em que os habitantes de Eutrópia se sentem acometidos pelo tédio e ninguém mais suporta o próprio trabalho, os parentes, a casa e a rua, os débitos, as pessoas que devem cumprimentar ou que os cumprimentam, nesse momento todos os cidadãos decidem deslocar-se para a cidade vizinha que está ali à espera, vazia e como se fosse nova, onde cada um escolher um outro trabalho, uma outra mulher, verá outras paisagens ao abrir as janelas, passará as noites com outros passatempos amizades impropérios. Assim as suas vidas se renovam de mudança em mudança, através de cidades que pela exposição ou pela pendência ou pelos cursos de água ou pelos ventos apresentam-se com alguma diferença entre si. Uma vez que sua sociedade é organizada sem grandes diferenças de riqueza ou de autoridade, as passagens de uma função para a outra ocorrem quase sem atritos; a variedade é assegurada pelas múltiplas incumbências, tantas que no espaço de uma vida raramente retornam para um trabalho que já lhes pertenceu.

Deste modo a cidade repete um vida idêntica deslocando-se para cima e para baixo em seu tabuleiro vazio. Os habitantes voltam a recitar as mesmas cenas com atores diferentes, contam as mesmas anedotas com diferentes combinações de palavras; escancara as bocas alternadamente com bocejos iguais. Única entre todas as cidades do império, Eutrópia permanece idêntica a si mesma. Mercúrio, deus dos volúveis, patrono da cidade, cumpriu esse ambíguo milagre.


O que: Trecho de Cidades Invísiveis
Quem: Italo Calvino.
Quando: Descoberta de uma noite de insônia
Onde: Pairando perdido na estante
Como: Tem rendido bons frutos
Por que: o signo não para de crescer....

O que não há no passaporte

Muito bem, sente-se.
- sento-me -
Documentos
- mostro -
Linhas
- deixo os dedos -
Foto
- faço cara de gripe -
Assinatura
- onde eu assino? -
Nesse papel que você não vê com essa caneta que não escreve
- por um livro de carimbos eu corto um t invisível -

Brigitte Bardot

A Brigitte Bardot está ficando velha, envelheceu antes dos nossos sonhos.

Coitada da Brigitte Bardot, que era uma moça bonita, mas ela mesma não podia ser um sonho para nunca envelhecer.

A Brigitte Bardot está se desmanchando e os nossos sonhos querem pedir divórcio. Pelo mundo inteiro milhões e milhões de sonhos querem também pedir divórcio e a Brigitte Bardot agora está ficando triste e sozinha.

Será que algum rapaz de vinte anos vai telefonar na hora exata em que ela estiver com vontade de se suicidar?

Quando a gente era pequeno, pensava que quando crescesse ia ser namorado da Brigitte Bardot, mas a Brigitte Bardot está ficando triste e sozinha

O que: Brigitte Bardot
Quem: Tom Zé
Quando: por volta de 23h da noite
Onde: no sofá
Como: tire as meias, os sapatos e pegue uma xícara de chá
Por que: e porque á e porquoi e porque é e porqué

Isto não é, só sonha

Viajarei para França.
Ando numa confusão dos diabos.

Escreverei e inscreverei por aqui. Cada dia um recorte do mundo que me parece, que me apreende.

Menos ócio que medo.
Mais alma que unha.