Sobre Garrel e canetas

Hoje, acordei mais capitalista que anarquista (ah, meu bem, em mim cabem as duas coisas ao mesmo tempo). Fui ao Leclerc, o mundo dos sonhos das compras, um supermercado que fica há cinco minutos a pé, bien sûr, de distância e tem de gasolina a palito de dentes.

Pois bem, chegando no tal mundo dos sonhos achei uma caneta tinteiro. Ah, como tenho afeto por canetas tinteiros! Assim, dessas de bico de pena que deixa até a letra mais bonita e custando apenas 1,50 euros. Comprei. "Sou daquelas mulheres que só dizem sim..."

Segundo momento, consumista, comprei meu copin francês, meu Louis Garrel, uma cafeteira que faz até 1,5 litros de café. A tal cafeteira estava na promoção e tem como defeito um neon azul que acende quando está funcionando. Enfim, estou super equipada para alimentar meu vício de cafeína. Agora, também poderei economizar os 50 centavos gastos na máquina de café, o outro grande amor francês.

Por falar na máquina de café, esses dias estava refletindo sobre o RU da UnB, que não é como o daqui que tem até camarão, mas enfim. Na máquina de café, tem uma bebida com aroma de cacau. É líquido marrom, que tinha tudo para ser chocolate quente normal, mas é uma experiência sinestésica, a gente bebe o cheiro. Aí, lembro do suco de cor do RU, a gente todo dia bebendo uma figura de linguagem sem se dar conta.

Fora todos esses pecados, semana passada fui à uma festa na casa de uma colega, uma soirée brasileira. Levei umas músicas daí e no fim estávamos sambando e eu tirei os sapatos. Ponto. Foi a primeira vez que fiquei verdadeiramente descalça aqui. Acho que estou começando a me adaptar a este continente.

ps: Interessados em cartas e postais me mandem o endereço por email. Aqui tem uns postais lindos!

O dia em que fui azul


Li as cidades invisíveis (livro roubado pelo ladrão intelectual que robou meu carro, meus livros, meus discos e uma casa no campo). Depois vi Budapeste e detestei, mas comecei a pensar que as cidades tem mesmo cores. Yandra, uma amiga, esteve em Budapeste e disse que lá é mesmo cinza, assim como nenhum outro lugar. Daniela, outra grande amiga, já havia me dito que a Suíça era azul. Perguntei a Abdeil, o marroquino que me recebeu em Lannion, hesitante ele me disse: "Marrocos é vermelha". Penso que Brasília é uma cidade inegavelmente branca e talvez isso seja culpa de Lispector, Niemeyer e Mondrian.

Domingo, fui novamente à praia de Trestaou em Perros-Guirrec, na França. Sentei nas pedras olhando o mar, as casas, os barcos e no fim só posso dizer que Perros é amarela. Tudo tem assim um amarelo queimado, bruillé. Já Lannion, é uma cidade amarelinha, quase como o jogo e menos como o livro do Cortázar, que eu nunca li. Creio na verdade que toda Bretanha seja amarela, até mesmo a comida tem um gosto amarelo, uma eterna mostarda perpetuando na língua.

De tanto pensar que estou em um mundo amarelo, domingo, pintei-me de azul para contrastar, para lembrar que eu não sou daqui, mas que quero harmonizar com a estética. Domingo, fui mais azul que a menina azul do Hermeto, que o filme da Tóia, que os olhos dos franceses. Colori-me e espero que quando desbotar fique assim um tie-die, brega como todos os tie-dies, mas numa psicodelia infinita, saravá.

Para a insônia:
(não é francês, mas é muito Lannion)

O que há no meu quarto de Lannion

Ainda não tenho uma máquina fotográfica (isso, mudei de continente sem máquina) mas, antes que você me bata, eu tenho uma webcam! Oui, e para ninguém botar defeito, fiz até um book em frente a minha nova velha mesa de trabalho.

1. Madame Bovarie
Essa flores roxas na minha mão são as hortências, planta símbolo da Bretanha, que decoram meu quarto.
No canto do cabelo, um petit parapluie, um guarda-chuva de papel que veio no ponche que tomei na festa de recepção dos calouros (adoro brindes!) Os franceses, ou pelo menos os de Lannion, dançando são o que podemos chamar de gringos.

2. Meia entrada

Essa é minha carteirinha de estudante. Para variar, minha foto 3X4 tá um desastre, mas não impede de conseguir desconto no cinema, no teatro e, pasme, no McDonalds.

3. Injeção na testa

A França é mesmo peculiar. O que você vai encontrar como brinde em um pacote de pães doces? A figurinha do picatchu, anel de plástico, não, sementes de mostarda branca e callipissus (!!!).
Vou plantá-las, se funcionar eu aviso.

4. Je sais lire

Essa é minha pose Fulanóvisk lendo a programação de um festival de teatro. Importante, aqui os folhetos de eventos são tão lindos! Esse aí é um que eu estava vendo para auxiliar em um projeto gráfico do jornal daqui (depois comento mais desse fato)

5. Recado na parede

Post-it aqui na França é igual no Brasil, mas os cadernos não. Aqui os cadernos são cheios de quadradinho e não linhas.




6. Probléme portable

Isto que tenho nas mãos é um celular comprado na Champs-Élysées (não consegui me livrar dessa praga). Não funciona para ligações internacionais e por enquanto uso mais como rádio(já consegui até ouvir um culto do descarrego em francês, pelo menos parecia bastante).

7. Mon coupin

Para finalizar, esse é o Louis Garrel na minha janela, pois afinal, todos os franceses são iguais ao Louis Garrel, né, Pit?
ps: o livro não está aparecendo, mas ele está lendo comigo Simone de Bouvoir.

Controle remoto

Nos primeiros dias na França fiquei procurando a tecla SAP, mas a gente sai de casa e deixa o controle remoto no sofá. Aí que você percebe que tudo mudou. Agora procuro outro botão, o do relativismo cultural. Viajar tem essas vantagens de olhar as coisas de longe e iniciamos o delicioso exercício de conseguir metáforas para definir as coisas, voilà, estou nesse processo por aqui.

Já tenho colegas que parecem mais gostar de mim do que conversar pela obrigação de ser gentil com a estrangeira. E na verdade isso de ser estrangeira e da sua cultura ganhar o adjetivo de exótica mexe com a cabeça da gente. Indagações, indagações.

Fora isso, preciso comentar da praia de Perros-Guirec. Ah, como o mar daqui é lindo! A água azulzinha e transparente, dá até para ver os peixinhos no fundo. Aí eu fui tentar mergulhar, mas os 15°C da água mal me deixaram respirar. Depois passou um meninho nadando como se nada estivesse acontecendo, estou guardando essa imagem para metaforizar alguma coisa.

Atenção a todos: estou montando aqui uma caixa de cartões postais e quem mais os quiser me mande por email o endereço que envio assim que possível.

Hoje vou a uma cremàrie, uma festinha que as pessoas fazem para inaugurar a casa, no caso dos estudantes daqui é para inaugurar a república que eles estão alugando. Enfim, depois conto as experiências.

Pequeno diário ou primeiras impressões

L’arrivée

Quando descemos do aeroporto a palavra que veio foi “Paris!”. Aí, veio o metrô, quarenta quilos de bagagem e muitas escadas. No meio do caminho um brasileiro de camisa da seleção que mora na cidade e vive de garçom no verão e futebol no inverno.

Chegamos ao hotel cinco horas depois do avião pousar, os braços arriados. O moço do hotel percebeu, nos ajudou, mas esqueceu de falar que La Rue de fréres de voisin, onde estávamos, não era francesa, mas a cópia de Ipanema. No primeiro dia de Paris, me senti no Rio e quase ouvi o mar.

Deuxiéme jour

A palavra que veio quando acordamos foi “Ai!”. Interjeição é palavra? Agora não importa, mas meu corpo pedia cama e minha cabeça era turista. Saímos cedo, pegamos o metrô, mas desta vez sabíamos olhar o mapa. Existem milhões de linhas de metrô em Paris!

No subsolo, havia gente, gente em silêncio, os franceses não são de falar em público, lêem, olham os sapatos, se calam e eu e a Lívia, minha companheira de viagem, ficamos conversando a viagem inteira. À caminho da saída uma surpresa, um homem tocando acordeom. Senhores, meus pés guiaram os braços e tive de dançar, no meio do metrô, personagem de um romance inacabado.

No centro de Paris, os olhos se perdiam por entre as construções, as pinturas nas paredes , as ruas com nomes deliciosos, os fumantes de elegância mor, as flores nas janelas, o Senna, a Torre Eifel, o palácio de Varsóvia, o arco do Triunfo, o vendedor argelino de souvenirs. Uma lágrima. Paris, conta história demais para os olhos.

Visitamos também a avenida Mangenta. Completamente fora do circuito turístico, a rua tem malas baratas, vestidos de noiva e bananas. Tanto ecletismo capitalista, misturado às roupas dos árabes, fizeram de uma simples parada uma experiência fascinante: Paris pulsa, mas não aquela Paris, a outra.

Lannion (a coupe d’oeil)

O trem atrasou, as vacas tem nariz branco, a menininha chamando o bicho de pelúcia: popo (um pequeno hipopótamo rosa, é, as crianças são esdrúxulas).

A sensação de estar indo para o meio do nada se confirmou quando chegamos a gare du train. Abdeil, carinhosamente chamado de Abgail, (não, eu não falo árabe, mas juro que tentei) nos recebeu.

A cidade é minúscula o céu com cara de chuva e o peso de quarenta quilos de mala. “Vocês tem o dinheiro do aluguel?”, assim nos recebeu a moça da entrada da residência universitária. Depois nos deu milhões de folhas de papel e sem olhar na cara nos entregou a chave. A palavra foi: “Céus”. O quarto era que só poeira e eram 21h da noite, ainda claro, pois aqui anoitece depois das 21h.

Duas horas da manhã, eu me senti em casa. Mala arrumada, quarto limpo, o céu desanuvio.

Depois de duas noites

Não sinto fome, nem sono, só frio. O clima por enquanto está ameno na cidade, mas a noite esfria um bocado. Cinco horas de fuso horário, noite começando às 21h, sem farinha, carne, nem feijão.

Os franceses são lindos, mas de boca fechada, sim, eles tem os dentes marrons, amarelos, roxos, isso quando tem. Além disso há um eterno cheiro de cêce no ar.

O Ru é limpíssimo, a comida variada e deliciosa, mas tem umas coisas que eu não faço idéia do que são

Hoje consegui escrever a carta que prometi a meus priminhos. Ainda não tive tempo de comprar postais.

Comecei a fazer amigos franceses, a entender a lógica deles e me diverti em um pequeno bar de Lannion tentando explicar Chico Science, forró e mentiras sobre brasileiras, é preciso urgentemente acabar com os cartazes de brasileiras de fio dental.